Tributário do Nilo, Tigre, Eufrates e Jordão
- Anima Animus
- 24 de set. de 2023
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Nenhuma religião nasce em um vácuo cultural e religioso, de modo que todas, em alguma medida corresponderam a ressignificações de dados culturais e religiosos já existentes associados a peculiaridades históricas do período em que emergiram e desenvolveram-se. Com o judaísmo não seria diferente, aditando o fato da enorme dificuldade em datar com alguma precisão o seu surgimento, enquanto religião sistematizada devido as esparsas fontes disponíveis.
A Bíblia e mais precisamente a Torá judaica junto às pesquisas arqueológicas seriam as principais fontes para reconstruir historicamente o percurso do judaísmo. No entanto, fontes da antiga mesopotâmia e até mesmo do antigo Egito parecem endossar a narrativa bíblica e tornar ainda mais complexo o entendimento da formação do judaísmo. Segundo o historiador Paul Johnson:
“A presença de uma grande comunidade judaica no Egito do século XIII a.C., na qual o Antigo Testamento joga uma luz esclarecedora, é amplamente confirmada por fontes egípcias (...)” [Johnson, Paul 1978, Egito Antigo; tradução Alberto Pucheu. – Rio de Janeiro: Ediouro, 2010, pg 136]
E ainda continua o mesmo autor:
“Muitos documentos egípcios da época referem-se a apiru (da língua acádia hapiru ou habiru, e daí, hebreu), termo que não significava para os egípcios um determinado grupo racial ou étnico, mas era um conceito social representando pessoas inferiores empregadas em força de trabalho (...)” [Johnson, Paul 1978, Egito Antigo; tradução Alberto Pucheu. – Rio de Janeiro: Ediouro, 2010, pg 137]
Esse autor, assim como o Cecil Roth empreendem suas análises sem negar um possível fundo de verdade existente por trás da tradicional narrativa bíblica. Esta narrativa se inicia no livro do Gêneses com o mito da criação, o cataclisma diluviano e posteriormente a saída de Abraão da cidade-estado de Ur na Mesopotâmia. É interessante notar que o mito de criação retratado no Gêneses bem como a história do dilúvio bíblico possuem congêneres mesopotâmicos mais antigos cunhados em suas tabuinhas de argila milenares. As versões sumérias atestam sua religião politeísta além da dissociação entre moralidade e culto religioso, evidenciando um paradigma distinto do hebraico ao mesmo tempo que explicitam a relação de ancestralidade entre as duas versões.
Os exemplares de textos mesopotâmicos reforçam a ideia de uma forte influência sumério-acádia na construção da religião hebraica, impactando sua concepção mitológica da criação, ainda que ressignificada pelo monoteísmo posterior. Paul Kriwaczek em sua obra: “Babilônia: A Mesopotâmia e o nascimento da civilização” teoriza baseado em dados linguísticos e em textos sumérios comparados aos relatos bíblicos que os chamados amoritas, oriundos do deserto sírio-árabe, poderiam ser os próprios ancestrais dos hebreus. Eles teriam migrado para o sul mesopotâmico por volta de 2000 a.C. e uma pequena parte deles, ciosa de preservar sua cultura e identidade teria partido de Ur lideradas por Abraão. Os outros amoritas teriam sido absorvidos pela cultura sumério-acádia e se empenhado em difundi-la, a exemplo dos hicsos após conquistarem o Egito.
As outras duas figuras fundamentais para compreensão do nascimento do judaísmo seriam José e Moisés. O primeiro seria situado durante o reinado dos faraós hicsos, fato que explicaria o tratamento amistoso dado ao povo hebreu nesse período tal como a ascensão social experimentada pelo intérprete de sonhos. O Segundo, igualmente, difícil de datar estaria situado ou durante o reinado de Tutmés III ou durante o reinado de Ramsés II. O ponto mais importante é perceber a influência da religião egípcia na concepção religiosa hebraica. Talvez, não por acaso é justamente no Novo Império que o culto ao deus tebano Amon ganhou mais força. Amon teria sido o deus imperial egípcio por excelência, o deus invisível, aquele que pode estar em todos os lugares, incluindo as terras estrangeiras. Amon era um deus com caráter universalizante, associado a Rá (seu aspecto solar visível) ele seria o deus dos deuses. Não por acaso, Aton, uma divindade solar aparentada a Rá se tornaria a partir de Amenófis IV a primeira experiência de monoteísmo em solo egípcio.
Outra característica importante na religião egípicia foi seu caráter antropofágico e fundidor cujo representante máximo era o faraó, a encarnação do deus Hórus. Ainda segundo Johnson, os egípcios consideravam cada faraó como a encarnação do mesmo deus Hórus, por isso não havia constrangimento por parte do novo faraó em renomear as obras do faraó anterior com seu próprio nome; a contagem do tempo de reinado também revela uma concepção cíclica onde cada reinado iniciava no ano I, como se o ciclo sempre se reiniciasse; as revoltas contra o poder central também não faziam distinção entre obras do faraó reinante ou dos faraós anteriores.
Essa concepção teológica egípcia associada ao contexto de expansão imperialista propiciou o florescimento, principalmente nas elites sacerdotais as quais tanto José quanto Moisés teriam tido acesso de um proto-monoteísmo. Os deuses, gradualmente, passaram a ser vistos como aspectos, características de uma mesma divindade única e universal. Isso já era anunciado desde a formulação das tríades egípcias: os três deuses formavam um, onde cada um representava um aspecto do mesmo ser divino. Também é no Egito a partir do Médio Império que progressivamente vai ganhando força a ideia de culto individual vinculado ao acesso de todos ao paraíso celeste, desde que honrassem maat (conceito que engloba a justiça, a ordem e a harmonia). No Antigo Império, o faraó era o único responsável por maat, ele era o ser humano integral do qual todos os súditos faziam parte, daí que para os súditos, garantir a imortalidade do faraó era garantir a própria imortalidade, a população formava Um com o faraó, mas esse paradigma entrou em colapso com a convulsão socioeconômica ocorrida no primeiro período intermediário.
Para finalizar as possíveis contribuições egípcias, vale lembrar que também é egípcia a ideia de um julgamento após morte, nesse caso no tribunal de Osíris onde o coração do morto seria pesado ao lado de maat, representada por uma pena para saber se aquela alma merecia o paraíso. Moisés e José teriam participado da corte egípcia, nos mais elevados cargos e admitindo sua existência, inexoravelmente seriam influenciados de alguma forma, pelas concepções religiosas vigentes no seu tempo. No caso de Abrão ainda fala-se na possibilidade de henotismo ou mesmo de politeísmo, sendo seu monoteísmo atribuído a ele a posteriore. Resta-nos Moises, como o grande arquiteto do monoteísmo judaico, seguindo o pensamento de Roth. Dependendo do tempo em que Moisés é situado, ele pode ter sido influenciado pelas ideias de Akhenaton ou pode até ter inspirado tais ideias. O fato é que essa concepção monoteísta já estava sendo gestada nesse período e não teria sido uma ideia tão revolucionária ou original por parte de Moisés.
Considerando a hipótese de Kriwaczek sobre os amoritas, seria intrigante especular que o mesmo ímpeto desse grupo em manter sua identidade cultural, incluindo sua religião teria se mantido durante a estada amistosa e o cativeiro no Egito. Mesmo com o gênio criativo de Moisés, podemos considerar sua formulação como um tipo de henotismo que após muitas décadas de vicissitudes amadureceria em um poderoso monoteísmo. O judaísmo teria surgido pela confluência de três influencias principais: a dos nômades pastores, a da mesopotâmia e a do Egito reformuladas, repensadas, retrabalhadas ao longo dos séculos. Isso sem contar na influência de outros povos nômades e seminômades que certamente entraram em contato com os hebreus, inclusive quando instalaram-se na Palestina. Mesmo não sendo originário da Palestina, foi seguramente lá, na terra tomada a força e pela força de Iahweh dos cananeus que o judaísmo deitou raízes e consolidou-se como tal.



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