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Relatório de História Indígena

  • Foto do escritor: Anima Animus
    Anima Animus
  • 26 de set. de 2023
  • 3 min de leitura

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Introdução


Há não muito tempo, a história indígena já foi pensada como a precária contribuição dos índios à formação da sociedade nacional. Aquela imagem dos três afluentes que marcaria o imaginário historiográfico, sendo o afluente indígena quase um córrego insignificante diante da caudalosa contribuição portuguesa que tais quais as modernas hidrelétricas submergem os povos periféricos, destituídos de protagonismo e centralidade. As mudanças de perspectivas historiográficas e antropológicas, operando gradualmente ao longo do século XX, descentralizaram o processo histórico, outrora concentrado nas mãos das elites europeias e passaram a focalizar, a humanizar os inúmeros atores envolvidos no devir da História.

Passaram-se muitos séculos para o olhar ocidental admitir, primeiro a existência de uma alma fosse nos ameríndios ou nos povos africanos, admitindo por conseguinte sua humanidade e para posteriormente, relutantemente admitirem suas historicidades, suas posições de sujeitos históricos. Esse segundo ponto, mesmo no século XXI ainda encontra suas resistências por parte de certos conservadores assim como do senso comum entranhado em milhões de pessoas devido há mais de 500 anos de violência física, psicológica e cultural, o chamado epistemecídio.

Após as lentes da história conseguirem focalizar os indígenas, aliando-se a antropologia para juntas vencerem as dicotomias do pensamento ocidental chegou o momento perscrutarem o olhar próprio das sociedades indígenas. Nesse momento, as lentes tentam ajustar-se ao olhar próprio dos índios e seus paradigmas que confundem as mentes ocidentalizadas. Os índios sobreviveram e não parecem dispostos a inexorabilidade de seu fim. Viveram 500 anos de múltiplas violências e reestruturaram suas culturas e organizações para fazer frente a tudo isso, sem abrir mão de uma identidade própria construída em processos milenares. Muitos deles estão hoje nas universidades dos nacionais, no templo do olhar desse Outro. Os observados que se tornam observadores legítimos, porque observadores sempre foram. Agora munidos do instrumental acadêmico e da experiência de séculos de luta pode haver uma esperança de diminuir a perniciosa assimetria de poder que os devastou por tanto tempo.



Descrição da experiência



As aulas de história indígena tiveram um aspecto fascinante, simplesmente pelos enfoques paradigmáticos que eu, particularmente me identifico. Poder pensar outros paradigmas não apenas do ponto de vista analítico, mas conferindo legitimidade a essas formas de ver o mundo que tanto estranhamento causam ao pensamento ocidental. O desencanto do mundo identificado por Weber no século de XIX e que parece ter ressonância direta nas distopias e depressões do séc. XXI é confrontado com a sobrevivência persistente de um mundo encantado dotado de racionalidade própria e de historicidade. O século XIX do cientificismo europeu taxou esses paradigmas tradicionais como avessos à razão e à história, consequentemente avessos ao progresso, contudo seu progresso desencantado produziu o horizonte do apocalipse nuclear, uma era de pessimismo e depressões econômicas e psicológicas.

A ideia de tentar enxergar os processos históricos a partir da perspectiva dos povos indígenas foi a mais cativante e o texto sobre o perspectivismo, do Mármore e a Murta, sem dúvida o mais instigante. Ao mesmo tempo que considero brilhante a análise de Viveiro de Castro, sinto que ele não chegou ao âmago do pensamento que tentava analisar, isso porque foi incapaz de despir-se do seu próprio sistema de pensamento, operação que aliás é impossível na sua plenitude. Todavia seria possível o processo de hibridização, de transculturação desde que ele fosse capaz reencantar-se pelo mundo assumindo as realidades do olhar indígena, ou parte delas como realidades possíveis e não apenas dados culturais, dentro da visão ocidentalizada de cultura. Assumir o holismo em suas análises não simplesmente como um fato cultural do Outro, mas como sua própria via de análise, seu ponto de partida, seu olhar ocidental indigenizado.

Acredito que todas as aulas foram permeadas em alguma medida do tema dessa perspectiva indígena e do conflito com nossos sistemas de pensamento. Um verdadeiro desafio de inteligibilidade. A mera apresentação dessa perspectiva indígena parecia abalar certezas, gerar desconfianças nas nossas estruturas mais fundamentais, uma vez que o paradigma indígena não pode adaptar-se facilmente ao ocidental, é diametralmente oposto. O estranhamento, as resistências, a perplexidade, a desorientaçãoe a desconfiança sobre a racionalidade desse modo de ver o mundo eram todos visíveis e até mesmo indisfarçáveis no olhar de muitos. E por tudo isso atesto a importância desse enfoque na disciplina. Um verdadeiro sopro de encantamento nesse mundo em que as pessoas desesperadas com a frieza da super-tecnologia acorrem em massa às muitas formas de espiritualidade mercantilizadas em busca de consolos imediatos. A fumaça tóxica exalada pelas mercadorias dos brancos nunca pareceu tão real e tão tóxica, justamente por isso, uma mudança de perspectiva seria a verdadeira e melhor forma de nos reinventarmos. Nessa dinâmica alucinante do mundo moderno, a rigidez fria dos mármores afigura-se bastante frágil e inapropriada, não à toa as individualidades encontram-se em pedaços. Enquanto isso a maleabilidade da murta com suas raízes imemoriais alimentando-se diretamente da Terra, continua a desenvolver seus galhos verdejantes, apesar de todas as tentativas de poda.

 
 
 

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