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Roma Invertida

  • Foto do escritor: Anima Animus
    Anima Animus
  • 24 de set. de 2023
  • 5 min de leitura


Apesar das vívidas imagens de multidões seguindo Jesus Cristo retratadas nos evangelhos, devemos nos perguntar quem, de fato compôs a primeira comunidade cristã logo após a paixão e morte do profeta nazareno. Segundo estudiosos como Francisco José Silva Gomes, a primeira comunidade cristã devia ser uma inexpressiva comunidade doméstica, composta por membros da família de Jesus, algumas mulheres e os onze apóstolos após o afastamento de Judas. A própria crucificação servia de terrível exemplo e advertência para todos que ousassem desafiar a ordem imperial romana, provavelmente, intimidando muitos que testemunharam ou souberam do fato. Contudo, nesse primeiro momento, aquele que teria vindo para cumprir a Lei em sua integralidade e não para destruí-la (Mateus 5;17), seria, por isso mesmo, identificado como mais uma tendência dentro do já plural judaísmo.

Jesus era antes de tudo um judeu, assim como seus doze discípulos. Um judeu que, segundo a tradição cristã, seria um profundo conhecedor da Lei a ponto de desafiar as autoridades judaicas em questões polêmicas e de costumes tradicionais, tomando a liberdade de reinterpretar essas mesmas Leis ao seu modo. Dessa maneira, constituiu-se nos anos 30 d.C. uma comunidade eminentemente judaica com tendências cristianizantes e um potencial de ruptura com o judaísmo, iniciado pela criatividade interpretativa de seu mentor, pela forma escandalosa da sua morte, pela proclamação do advento da ressurreição e pela vinculação da ideia de um Messias ao arquétipo do Justo Sofredor, sedimentado no Antigo Testamento e que remonta à tradição mesopotâmica milenar.

A morte de Jesus e nomeadamente a forma de sua morte exigiram dos seus primeiros seguidores judeus uma ressignificação fundamental do papel do Messias. Uma ressignificação da ideia mais terrena de messias como um libertador dos filhos de Israel das mãos do Império Romano através de uma campanha militar, uma espécie de segundo Rei Davi para um papel de Rei de outro mundo, o Rei dos Céus, do Paraíso. O Deus dos exércitos tornou-se o Pai amoroso que perdoou os ímpios ignorantes do que faziam, ao invés de esmagá-los. Esse Reino dos Céus, disponível a todos que seguissem O Caminho, aqui e agora, possuía o germe do caráter universalizante do cristianismo em contraposição ao etnocentrismo judaico. Os eleitos poderiam ser, em tese, os que se dispusessem a seguir O Caminho e não apenas os filhos legítimos de Israel. Tudo isso constitui o embrião da separação entre as duas religiões, mas esta separação não se da de maneira imediata nem sem enfrentar conflitos internos e externos.

Silva Gomes vislumbrou três tendências principais dentro do nascente cristianismo: a dos judeus-cristãos rigoristas, dos judeus-cristãos moderados e a dos judeus-cristãos helenistas. Caso os judeus-cristãos rigoristas, liderados por Tiago, “o irmão do Senhor”, tivessem sido hegemônicos nós, possivelmente teríamos, de fato, o cristianismo como apenas uma corrente dentro do judaísmo, uma vez que esses adeptos pregavam a observância integral da Lei e não admitiam os incurscisos em seus quadros, para citar um exemplo. No caso dos judeus-cristãos helenistas, estes teriam uma maior vocação universalista, uma visão mais flexível da Lei judaica e uma concepção da divindade desvinculada de pontos fixos ou de templos feitos pelo homem. Desse modo os helenistas estavam em rota de colisão tanto com os judeus, quanto com os judeu-cristãos rigoristas, não tardando para suas consequências aparecerem na forma da lapidação de Estevão e da dispersão dos outros que seguiam essa vertente. Esses helenistas seriam os primeiros a levar sua Boa Nova aos gentios, sem contar que o conflito iniciado em Jerusalém causaria profunda impressão no Paulo de Tarso convertido, o qual teria visto a lapidação de Estevão.

Paulo de Tarso, o apóstolo dos gentios, teria sido o grande advogado do pensamento judeu-cristão helenista. Ele enfrentaria a polêmica da obrigatoriedade da circuncisão e colocaria a justiça divina amparada na morte e ressurreição de Jesus, acima da Lei judaica a qual era de onde a ideia de justiça emanava. Ainda assim a concepção judaizante não foi totalmente derrotada com argumentação de Paulo, sendo, por isso firmado um acordo que dividiria a tarefa de evangelização entre os seguidores de Paulo e os de Tiago, um responsável pelos gentios e o outro pelos circuncidados. Esse acordo caracterizou um processo de acomodação, mas o conflito permanecia tão latente quanto patente entre as duas visões de cristianismo. Os rigoristas receberiam o golpe fatal com a segunda destruição do Templo em 70 d.C. que inviabilizou suas formas tradicionais de cultuar e desestruturou seus adeptos materialmente e espiritualmente, nessa época Paulo já teria partido desse mundo.

É notável sabermos muito sobre Paulo e daqueles que gravitaram em torno dele e obviamente isso é devido as fontes disponíveis. Sem embargo, podemos entrever nessa documentação paulina e lucana a existência de outras comunidades e de outros apóstolos que não tiverem seus nomes aureolados pelos escritos cristãos. Do mesmo modo podemos entrever concepções distintas do pensamento paulino e enfrentadas pelo apóstolo dos gentios com vigor.

O contato com os gentios e a posterior abertura para a conversão desses povos foi o estopim para o processo de desmembramento entre o cristianismo e o judaísmo. O próprio termo “cristão” teria sido cunhado por gentios evangelizados por Paulo ao identificarem os seguidores do Caminho. Esse contato gerou aversão e indignação entre os judeus e a abertura para conversão e integração desses povos na comunidade cristã desenvolveu um conflito que só foi solucionado com o rompimento entre as duas correntes religiosas. Rompimento esse efetivado apenas a partir da época subapostólica, após a destruição do Templo de Jerusalém que iniciaria a Diáspora dos judeus e a consolidação do cristianismo, inclusive com a criação dos conhecidos evangelhos sinóticos. É notável que os romanos não sabiam diferenciar, inicialmente, os cristãos dos judeus.

O judaísmo era multiforme antes do próprio nascimento de Jesus e não havia ficado imune as poderosas influências da cultura greco-romana que pela extensão do Império, pela diversidade de povos e pelo helenismo empreendido por Alexandre séculos antes, também era uma cultura intensamente plural. As formas de judaísmo anteriores ao cristianismo seriam o fermento deste e possibilitariam, justamente os rearranjos e ressignificações empregados por Jesus e seus apóstolos. O judaísmo ressignificado na pessoa de Jesus que assumiu o papel de um novo Moisés ao legislar seu novo mandamento transformou-se, gradualmente, na religião cristã conhecida de hoje. A própria Regra de Ouro, reiteradamente negligenciada pelos ditos guardiões da fé cristã ao longo da história, foi um ensinamento atualizado pelo Cristo a partir de sua contraparte judaica que a enunciava pelo viés negativo: não fazer aos outros o que não quer para si mesmo. Jesus, tão acusado de pregar a passividade, parecia ser antes um homem da ação, uma ação contraria a tudo que Roma simbolizava da mesma maneira que a palavra Amor pode ser lida quando Roma está invertida.

 
 
 

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