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Ingênuas Vontades

  • Foto do escritor: Anima Animus
    Anima Animus
  • 24 de set. de 2023
  • 3 min de leitura


1930. Revolução? Golpe? Palavras que ressoaram, tanto quanto ecoaram na história tortuosa do Brasil. Um período entre guerras, de cicatrizes abertas pelo globo, um período de dissolução do jogo de forças tradicionais brasileiras instaurado pela Primeira República, denominada posteriormente de República Velha. Apesar dos efeitos da Grande Guerra, as nações ainda disputavam uma corrida febril a fim de alcançarem o pódio de primeiro lugar em matéria de civilização. Indústrias, tecnologias, armamentos e claro, educação. A educação apresentava-se sedutora como uma nova panaceia universal. Ignorância, a raiz da barbárie, a raiz de todos os males. Educação, a cura!

Em 1930, a locomotiva cafeeira estava seriamente avariada, apesar de todos os remendos estatais, de todos os empurrõezinhos da mão semi-invisível do mercado paulista acoplada à fortaleza governamental federal. Nesse terreno extremamente acidentado, foi plantada a semente das muitas promessas feitas pelos Pioneiros do Manifesto educacional. Uma renovação do Estado, não podia prescindir de uma renovação daquele sistema educativo, fragmentado, desorganizado, ineficaz no dizer dos intelectuais manifestantes:

(...) todos os nossos esforços, sem unidade de plano e sem espírito de continuidade, não lograram ainda criar um sistema de organização escolar, à altura das necessidades modernas e das necessidades do país. Tudo fragmentário e desarticulado. (O Manifesto dos Pioneiros da Educação, 1932)


O raio X dos pioneiros logrou apontar uma série de entraves para o desenvolvimento do país focando através da lente educacional:


Em lugar dessas reformas parciais, que se sucederam, na sua quase totalidade, na estreiteza crônica de tentativas empíricas (O Manifesto dos Pioneiros da Educação, 1932)


A escola tradicional, instalada para uma concepção burguesa, vinha mantendo o indivíduo na sua autonomia isolada e estéril, resultante da doutrina do individualismo libertário, que teve aliás o seu papel na formação das democracias e sem cujo assalto não se teriam quebrado os quadros rígidos da vida social.(O Manifesto dos Pioneiros da Educação, 1932)


A obrigatoriedade que, por falta de escolas, ainda não passou do papel, nem em relação ao ensino primário (...) ‘na sociedade moderna em que o industrialismo e o desejo de exploração humana sacrificam e violentam a criança e o jovem’, cuja educação é freqüentemente impedida ou mutilada pela ignorância dos pais ou responsáveis e pelas contingências econômicas.(O Manifesto dos Pioneiros da Educação, 1932)


É interessante notar o caráter reformista desse movimento renovador o qual pensava a educação enquanto boa alternativa aos processos revolucionários. Uma mudança lenta e gradual da sociedade fundada nas instituições escolares. Vale salientar a crença na força individual ainda que tivessem um horizonte solidário e cooperativo em suas concepções de homem moderno. Professores e familiares foram criticados devido a seu despreparo pedagógico somado às condições precárias vivenciadas, fator inviabilizante da utilização dos recursos didáticos mais sofisticados. Não menos importante percebe-se, nas entrelinhas uma crítica ao liberalismo tal qual foi montado no Ocidente, assim como ao aparelhamento estatal pelas elites agrárias brasileiras, tudo isso sem sair completamente do paradigma liberal, iluminista e republicano. Apesar de tudo, sua visão linear da História, enraizava uma fé num progresso inelutável facultado pelas luzes da Escola.

Essa fé sofreu um abalo explosivo durante e após a Segunda Guerra Mundial. O ápice da tecnologia humana aplicado da maneira mais bárbara possível. A quebra da linearidade, a profunda desilusão, o medo. Mesmo antes disso, a montagem de um Estado ditatorial com pretensões modernizantes foi suficiente para sufocar, ao menos em parte, essa onda renovadora. Muitas ideias presentes no Manifesto, ainda são atuais, atraentes e por vezes precisas em suas críticas: a educação para vida; a formação do cidadão pensante; o professor de alta qualificação; a valorização do trabalho, do espaço fora da sala de aula etc. Contudo ainda arranham a superfície do problema. Subestimaram o peso das estruturas político-econômico-culturais. Esse peso esmagou seus ingênuos, porém genuínos sonhos. Sonhos, ideias, vem e vão ao sabor dos tempos, sempre à espera das novas mentes, prontas para lhes dar novas-velhas formas e cores. A vida é dinâmica e nisso, sem dúvida, eles acertaram e são atuais. Resta a Escola escolher entre o dinamismo da vida ou ficar para trás.

 
 
 

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